Prescrição Farmacêutica: Plantas Medicinais e Fitoterápicos - Revisão e Atualização

A prescrição farmacêutica no Brasil tem evoluído significativamente nos últimos anos, com importantes marcos regulatórios que legitimam e ampliam esta prática profissional. Esta revisão atualiza as informações sobre o tema, com ênfase na prescrição de plantas medicinais e fitoterápicos.

Fundamentação Legal da Prescrição Farmacêutica

O farmacêutico tem autorização para prescrever, desde que o problema de saúde seja considerado autolimitado, com baixa complicação e curto período de desenvolvimento. Esta atribuição está fundamentada em uma série de resoluções do Conselho Federal de Farmácia (CFF).

Em 21 de julho de 2011, foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) a Resolução nº 546 do CFF, que dispõe sobre a indicação farmacêutica de plantas medicinais e fitoterápicos isentos de prescrição e seu registro. A partir dessa publicação, ficou explícita a competência do farmacêutico para indicação de plantas medicinais e fitoterápicos.

Em 2013, essa atuação se consolidou com a publicação de duas importantes resoluções:

  • Resolução CFF nª 585/2013, que regulamentou as atribuições clínicas do farmacêutico
  • Resolução CFF nª 586/2013, que regulamentou a prescrição farmacêutica

É importante destacar que a Resolução 586/2013 foi objeto de contestação judicial em novembro de 2024, quando o juiz federal Alaôr Piacini, da 17ª Vara Federal Civil da Justiça no Distrito Federal, suspendeu sua aplicação em resposta a uma ação civil pública ajuizada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). O CFF anunciou recurso contra esta decisão, argumentando que a Lei nº 3820/1960 estabelece como sua atribuição expedir resoluções que definam as atribuições dos profissionais farmacêuticos.

Em fevereiro de 2025, o CFF aprovou a Resolução nº 5/2025, que representa uma atualização importante no escopo da prescrição farmacêutica, estabelecendo novas regras para a prescrição de medicamentos tarjados mediante Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em Farmácia, conforme aprovado pela Resolução nº 4/2025


Escopo da prescrição farmacêutica de fitoterápicos

A partir das regulamentações vigentes, o farmacêutico pode prescrever diversos produtos de venda livre, inclusive plantas medicinais e fitoterápicos, abrangendo um vasto rol de produtos industrializados, preparações magistrais e até mesmo plantas medicinais frescas ou secas.

Fitoterápicos de Venda Livre

  • O farmacêutico pode prescrever plantas medicinais e fitoterápicos isentos de prescrição médica.
  • Isso inclui produtos industrializados, preparações magistrais e plantas medicinais frescas ou secas.
  • A prescrição deve ser feita com base em conhecimentos técnico-científicos e princípios éticos.

Limites da Prescrição Farmacêutica

  • Fitoterápicos com indicações terapêuticas listadas na RDC nº 138/2003 são isentos de prescrição médica.
  • Fitoterápicos com outras indicações terapêuticas requerem prescrição médica.
  • Produtos Tradicionais Fitoterápicos (PTF) geralmente são isentos de prescrição, pois tratam condições leves que não exigem acompanhamento médico.

Fitoterápicos no SUS

  • O SUS oferece 12 medicamentos fitoterápicos na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename).
  • Exemplos incluem: Espinheira-santa, Guaco, Alcachofra, Aroeira, entre outros. Confira o post completo sobre os Fitoterápicos ofertados no SUS

Regulamentação e Capacitação

  • A prescrição farmacêutica é regulamentada pela Resolução CFF nº 546/2011.
  • O farmacêutico deve ter conhecimentos específicos e habilidades de comunicação para realizar a indicação farmacêutica.
  • A capacitação pode ser obtida através de disciplinas de graduação, pós-graduação ou cursos livres reconhecidos pelo CFF.
A Associação Brasileira de Fitoterapia (Abfit) promove especialização em Fitoterapia na prática clínica para prescritores (Nutricionistas, Médicos, Farmacêuticos, Enfermeiros, Fisioterapeutas, Dentistas), sendo uma opção importante para farmacêuticos que desejam se aprofundar nesta área.

Com a nova Resolução 5/2025 do CFF, torna-se ainda mais relevante a busca por qualificação especializada, já que o Registro de Qualificação de Especialista (RQE) passou a ser requisito para ampliação do escopo da prescrição farmacêutica.

Importância da Atuação Farmacêutica

  • O farmacêutico desempenha papel crucial na orientação, seleção e prescrição de fitoterápicos.
  • Sua atuação contribui para o uso racional e seguro desses produtos.
  • A prescrição farmacêutica de fitoterápicos pode reduzir a medicalização excessiva e promover tratamentos alternativos.

É fundamental que o farmacêutico conheça os limites de sua atuação, especialmente em relação aos fitoterápicos que requerem prescrição médica, seguindo as normativas da ANVISA e do Conselho Federal de Farmácia (Vide apêndice).


Cuidados na prescrição e uso de plantas medicinais e fitoterápicos

A prescrição farmacêutica de fitoterápicos deve considerar grupos especiais que requerem cuidados específicos:

Crianças menores de 2 anos

  • Necessitam doses diferenciadas
  • Possuem metabolismo hepático imaturo, o que pode afetar o processamento dos compostos

Gestantes e Lactantes

  • Há falta de estudos de segurança para muitos fitoterápicos
  • Existe risco de aborto com certas plantas medicinais
  • A transferência de compostos para o leite materno pode afetar o lactente

Idosos

  • Maior risco de interação entre fármacos convencionais e plantas medicinais
  • Podem apresentar fragilidade cognitiva que afeta a adesão
  • Alterações no metabolismo podem modificar a resposta terapêutica

Pessoas de qualquer idade em condições especiais

  • Em uso de anticoagulantes (muitas plantas têm efeitos sobre a coagulação)
  • Com doença renal (alteração na excreção)
  • Com doença hepática (comprometimento do metabolismo)


Revisado em 20/03/2025

Referências

BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Instrução Normativa nº 5, de 11 de dezembro de 2008. Determina a publicação da "Lista de medicamentos fitoterápicos de registro simplificado". Diário Oficial da União, Brasília, DF, 12 dez. 2008.
BRASIL. Conselho Federal de Farmácia. Resolução nº 546, de 21 de julho de 2011. Dispõe sobre a indicação farmacêutica de plantas medicinais e fitoterápicos isentos de prescrição e o seu registro. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 21 jul. 2011.
BRASIL. Conselho Federal de Farmácia. Resolução nº 585, de 29 de agosto de 2013. Regulamenta as atribuições clínicas do farmacêutico e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 25 set. 2013.
BRASIL. Conselho Federal de Farmácia. Resolução nº 586, de 29 de agosto de 2013. Regula a prescrição farmacêutica e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 26 set. 2013.
BRASIL. Conselho Federal de Farmácia. Resolução nº 5, de 20 de fevereiro de 2025. Atualiza as normas para prescrição farmacêutica e estabelece requisitos para prescrição de medicamentos tarjados. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 25 fev. 2025.
BRASIL. Ministério da Saúde. A Fitoterapia no SUS e o Programa de Pesquisas de Plantas Medicinais da Central de Medicamentos. Brasília: Ministério da Saúde, 2006. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/fitoterapia_no_sus.pdf. Acesso em: 20 Set. 2015.
BRASIL. Ministério da Saúde. Coordenação Nacional de Práticas Integrativas e Complementares. Relatório de Gestão: 2006/2010. Práticas Integrativas e Complementares no SUS. Brasília: Ministério da Saúde, 2011.
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS: PNPIC-SUS. Brasília: Ministério da Saúde, 2006. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/pnpic.pdf. Acesso em 30 ago. 2015.
BRASIL. Ministério da Saúde. Práticas integrativas e complementares: plantas medicinais e fitoterapia na Atenção Básica. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Brasília: Ministério da Saúde, 2012. 156 p. (Série A. Normas e Manuais Técnicos) (Cadernos de Atenção Básica; n. 31).
CONSELHO REGIONAL DE FARMÁCIA DO PIAUÍ. Uso de medicamentos fitoterápicos requer cuidados. Disponível em: https://crfpi.org/uso-de-medicamentos-fitoterapicos-requer-cuidados/. Acesso em: 18 mar. 2025.


APÊNDICE

Nome Popular (Nome Científico)

Indicação Principal

Prescrição Médica

Alcachofra (Cynara scolymus L.)

Colerético, colagogo

 

Alcaçuz (Glycyrrhiza glabra L.)

Expectorante, coadjuvante no tratamento de úlceras gástricas e duodenais

 

Alho (Allium sativum L.)

Coadjuvante no tratamento de hiperlipidemia e hipertensão arterial leve

 

Arnica (Arnica montana L.)

Equimoses, hematomas e contusões

 

Babosa (Aloe vera (L.) Burm. f.)

Cicatrizante (uso tópico para queimaduras de 1º e 2º graus)

 

Boldo (Peumus boldus Molina)

Colagogo, colerético, dispepsias funcionais, distúrbios gastrointestinais espásticos

 

Calêndula (Calendula officinalis L.)

Cicatrizante, anti-inflamatório

 

Camomila (Matricaria recutita L.)

Antiespasmódico intestinal, dispepsias funcionais

 

Cáscara Sagrada (Rhamnus purshiana DC.)

Constipação ocasional

 

Castanha da Índia (Aesculus hippocastanum L.)

Fragilidade capilar, insuficiência venosa

 

Centela (Centella asiatica (L.) Urban)

Insuficiência venosa dos membros inferiores

 

Cimicífuga (Cimicifuga racemosa (L.) Nutt.)

Sintomas do climatério

Confrei (Symphytum officinale L.)

Cicatrizante, equimoses, hematomas e contusões

 

Equinácea (Echinacea purpurea Moench)

Preventivo e coadjuvante na terapia de resfriados e infecções do trato respiratório e urinário

Erva-doce (Pimpinella anisum L.)

Expectorante, antiespasmódico, carminativo, dispepsias funcionais

 

Espinheira-Santa (Maytenus ilicifolia Mart. ex Reiss.)

Dispepsias, coadjuvante no tratamento de gastrite e úlcera gastroduodenal

 

Eucalipto (Eucalyptus globulus Labill.)

Anti-séptico e antibacteriano das vias aéreas superiores, expectorante

 

Gengibre (Zingiber officinale Rosc.)

Profilaxia de náuseas causada por movimento (cinetose) e pós-cirúrgicas

 

Ginkgo (Ginkgo biloba L.)

Vertigens e zumbidos resultantes de distúrbios circulatórios, distúrbios circulatórios periféricos

Ginseng (Panax ginseng C. A. Mey.)

Estado de fadiga física e mental, adaptógeno

 

Guaco (Mikania glomerata Sprengl.)

Expectorante, broncodilatador

 

Guaraná (Paullinia cupana H.B.&K.)

Psicoestimulante/astenia

 

Hamamélis (Hamamelis virginiana L.)

Hemorróidas, equimoses

 

Hipérico (Hypericum perforatum L.)

Estados depressivos leves a moderados

Hortelã-pimenta (Mentha piperita L.)

Carminativo, antiespasmódico intestinal, expectorante

 

Kava-kava (Piper methysticum G. Forst.)

Ansiolítico/ansiedade e insônia

Maracujá (Passiflora incarnata L.)

Ansiolítico leve

 

Melissa (Melissa officinalis L.)

Carminativo, antiespasmódico, ansiolítico leve

 

Polígala (Polygala senega L.)

Bronquite crônica, faringite

 

Sabugueiro (Sambucus nigra L.)

Mucolítico/expectorante, tratamento sintomático de gripe e resfriado

 

Salgueiro branco (Salix alba L.)

Antitérmico, anti-inflamatório, analgésico

 

Saw palmetto (Serenoa repens (Bartram) J.K. Small)

Hiperplasia benigna de próstata e sintomas associados

Sene (Senna alexandrina Mill.)

Laxativo

 

Tanaceto (Tanacetum parthenium Sch. Bip.)

Profilaxia da enxaqueca

Uva-ursi (Arctostaphylos uva-ursi Spreng.)

Infecções do trato urinário

Valeriana (Valeriana officinalis L.)

Sedativo moderado, hipnótico e no tratamento de distúrbios do sono associados à ansiedade

Nota: A marca ✓ na coluna "Prescrição Médica" indica que o fitoterápico é de venda sob prescrição médica.

Março Azul-marinho – Câncer Colorretal

Março é o mês de conscientização ao câncer colorretal, conforme as cores da saúdeO câncer colorretal é o terceiro câncer mais comum no país. A escolha do mês foi devido ao Dia Nacional de Combate ao Câncer de Intestino, dia 27 de março.

O câncer de intestino ou colorretal abrange os tumores que se iniciam na parte do intestino grosso chamada cólon e no reto (final do intestino, imediatamente antes do ânus) e ânus. É tratável e tem possibilidade de cura ao ser detectado precocemente, enquanto não é metástase. Grande parte desses tumores se inicia a partir de pólipos.

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Os pólipos são adenomas (lesões benignas), que crescem na parede do cólon e, quando associados a modos de vida não saudáveis e predisposição genética podem, com o passar do tempo, transformar-se em câncer. 


FATORES DE RISCO

  • Idade igual ou acima de 50 anos;
  • Fumar;
  • Consumir bebidas alcoólicas;
  • Ter sobrepeso ou obesidade;
  • Consumir alimentos com alta densidade energética (são aqueles que a cada 100g oferecem 225-275Kcal): ingestão excessiva de carne vermelha (acima de 500 gramas de carne cozida por semana);
  • Consumir carnes (quaisquer tipos, inclusive aves e peixes) preparadas na chapa ou na forma de fritura, grelhado ou churrasco;
  • Consumir de carnes processadas (salsicha, mortadela, linguiça, presunto, bacon, blanquet de peru, peito de peru e salame)
  • Consumir pouca quantidade de frutas, legumes, verduras e cereais integrais;
  • Ser sedentário;
  • Exposição ocupacional à radiação ionizante, como aos raios X e gama, pode aumentar o risco para câncer de cólon (Profissionais do ramo da radiologia devem estar mais atentos);
  • Histórico familiar de câncer de intestino;
  • História pessoal de câncer de intestino, ovário, útero ou mama;
  • Doenças inflamatórias do intestino (retocolite ulcerativa crônica e doença de Crohn);
  • Doenças hereditárias (polipose adenomatosa familiar (FAP) e câncer colorretal hereditário sem polipose (HNPCC)).

Os sinais e sintomas mais frequentes são: sangue nas fezes, alteração do hábito intestinal, dor ou desconforto abdominal, fraqueza e anemia, perda de peso sem causa aparente, alteração na forma das fezes (fezes muito finas e compridas), massa abdominal. Ao apresentar esses sintomas, procure um médico para melhor avaliação, pois outras doenças, como hemorroidas, verminose, úlcera gástrica, também podem apresentar esses sintomas.



TRATAMENTO

O tratamento é variável e depende da condição clínica do paciente. Pode ser feito cirurgias, radioterapias, tratamento farmacológico (quimioterapia). Os principais fármacos utilizados no tratamento do câncer colorretal são:

  • 5-fluorouracil (5-FU);
  • Capecitabina;
  • Irinotecano;
  • Oxaliplatina;
  • Trifluridina e tipiracil.


PREVENÇÃO

  • Manutenção do peso corporal adequado;
  • Prática de atividade física;
  • Alimentação saudável (alimentos in natura e minimamente processados).
  • Não fumar.

REFERÊNCIAS:

  • https://www.inca.gov.br/tipos-de-cancer/cancer-de-intestino
  • http://www.oncoguia.org.br/conteudo/quimioterapia-para-cancer-colorretal/3229/180/