O Diabetes
Mellitus (DM) constitui um importante desafio para a saúde pública
mundial e para nós, profissionais de saúde. Compreender os diferentes tipos
dessa síndrome metabólica é fundamental para o diagnóstico correto e a
abordagem terapêutica individualizada.
O que é Diabetes Mellitus?
O DM é uma
síndrome de etiologia múltipla caracterizada por hiperglicemia crônica
resultante de defeitos na secreção de insulina, na ação desse hormônio, ou em
ambos os mecanismos. A hiperglicemia persistente causa distúrbios no
metabolismo dos carboidratos, lipídios e proteínas, podendo levar a
complicações micro e macrovasculares ao longo do tempo.
Para
contextualizar, é importante entender dois conceitos fundamentais:
- Hiperglicemia: Elevação da glicose no sangue, que frequentemente resulta em sintomas como poliúria (aumento da frequência urinária), polidipsia (sede excessiva), polifagia (fome excessiva), perda de peso inexplicada e, em casos graves, cetoacidose diabética.
- Hipoglicemia: Nível anormalmente baixo de glicose no sangue, geralmente abaixo de 70 mg/dL, que pode ocorrer como complicação do tratamento do diabetes e manifesta-se com sintomas como tremores, sudorese, taquicardia, confusão mental e, em casos graves, convulsões e coma.
Classificação Atual dos Tipos de Diabetes
A Classificação Atual dos Tipos de Diabetes Mellitus, em conformidade com a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), inclui: DM Tipo 1, DM Tipo 2, DM Gestacional, e Outros Tipos:
1. Diabetes
Mellitus Tipo 1 (DM1)
1.1 DM1A
(autoimune)
- Resulta da destruição autoimune das
células beta pancreáticas
- Geralmente diagnosticado na
infância ou adolescência, mas pode ocorrer em qualquer idade
- Presença de autoanticorpos
(anti-GAD, anti-IA2, anti-insulina e anti-ZnT8)
- Dependência absoluta de insulina
para sobrevivência
- Tendência à cetoacidose na ausência
de tratamento adequado
1.2 DM1B
(idiopático)
- Deficiência de insulina sem
evidência de processo autoimune
- Etiologia desconhecida
- Mais comum em indivíduos de origem
africana ou asiática
- Caráter fortemente hereditário em
algumas famílias
- Apresentação clínica semelhante ao
DM1A
1.3
Diabetes Autoimune Latente do Adulto (LADA)
- Considerado uma forma de DM1 que se
desenvolve mais lentamente
- Diagnóstico geralmente após os 30
anos
- Presença de autoanticorpos,
especialmente anti-GAD
- Progressão mais gradual para
dependência de insulina
- Frequentemente confundido com DM2
no diagnóstico inicial
2. Diabetes
Mellitus Tipo 2 (DM2)
- Caracterizado por defeitos na
secreção de insulina e resistência à ação desse hormônio
- Representa 90-95% dos casos de
diabetes
- Geralmente diagnosticado após os 40
anos, mas com incidência crescente em jovens
- Forte associação com obesidade,
sedentarismo e histórico familiar
- Evolução lenta e progressiva
- Inicialmente assintomático na
maioria dos casos
- Tratamento envolve mudanças no
estilo de vida, antidiabéticos orais e, eventualmente, insulina
3. Diabetes
Mellitus Gestacional (DMG)
- Hiperglicemia de gravidade variável
detectada durante a gestação, sem diagnóstico prévio de diabetes
- Resulta da resistência à insulina
induzida pelos hormônios placentários
- Afeta aproximadamente 7% das
gestações
- Fatores de risco: idade materna
avançada, obesidade, histórico familiar e DMG prévio
- Geralmente desaparece após o parto,
mas indica maior risco de desenvolvimento de DM2 no futuro
4. Outros
Tipos Específicos de Diabetes
4.1
Defeitos Genéticos na Função da Célula Beta
4.1.1 Diabetes Monogênicos (MODY - Maturity-Onset
Diabetes of the Young)
- Transmissão autossômica dominante
- Diagnóstico geralmente antes dos 25
anos
- Distúrbios primários da função da
célula beta
- Subtipos principais:
- MODY 1 (gene HNF4A): responde a
sulfonilureias
- MODY 2 (gene GCK): hiperglicemia
leve, geralmente não requer tratamento
- MODY 3 (gene HNF1A): mais comum,
boa resposta a sulfonilureias
- MODY 4 (gene IPF1): raro
- MODY 5 (gene HNF1B): associado a
malformações renais
- MODY 6 (gene NEUROD1): raro
4.1.2
Diabetes Neonatal
- Diagnóstico nos primeiros 6 meses
de vida
- Pode ser transitório ou permanente
- Frequentemente causado por mutações
nos genes KCNJ11 e ABCC8
- Alguns casos podem responder a
sulfonilureias
4.2
Defeitos Genéticos na Ação da Insulina
- Resistência à insulina do tipo A
- Leprechaunismo
- Síndrome de Rabson-Mendenhall
- Diabetes lipoatrófico
4.3 Doenças
do Pâncreas Exócrino
- Pancreatite crônica
- Pancreatectomia ou trauma
- Neoplasia pancreática
- Fibrose cística
- Pancreatopatia fibrocalculosa
- Este tipo é também conhecido como
"Diabetes tipo 3c" e frequentemente requer insulinoterapia
4.4
Endocrinopatias
- Acromegalia (excesso de hormônio do
crescimento)
- Síndrome de Cushing (excesso de
cortisol)
- Glucagonoma
- Feocromocitoma
- Somatostatinoma
- Aldosteronoma
4.5
Diabetes Induzido por Medicamentos ou Agentes Químicos
- Glicocorticoides (prednisona,
dexametasona)
- Antipsicóticos atípicos
(olanzapina, clozapina)
- Imunossupressores (tacrolimus,
ciclosporina)
- Diuréticos tiazídicos
- Betabloqueadores
- Estatinas
- Interferon alfa
4.6
Infecções
- Rubéola congênita
- Citomegalovírus
- Enterovírus
4.7 Formas
Incomuns de Diabetes Autoimune
- Síndrome de Stiff-Man
- Anticorpos antirreceptores de
insulina
4.8
Síndromes Genéticas Associadas ao Diabetes
- Síndrome de Down
- Síndrome de Klinefelter
- Síndrome de Turner
- Síndrome de Wolfram
- Ataxia de Friedreich
- Coreia de Huntington
- Síndrome de Prader-Willi
Prevenção: Depende do Tipo de Diabetes
Diabetes
tipo 1
- Atualmente, não existem
intervenções comprovadamente eficazes para prevenir ou retardar o
desenvolvimento do DM1
- Estudos com imunomoduladores e
outras abordagens estão em andamento, mas ainda sem resultados conclusivos
Diabetes
tipo 2
- Há evidências robustas de que
mudanças no estilo de vida podem prevenir ou retardar significativamente o
desenvolvimento do DM2 em pessoas com fatores de risco:
- Redução de 5-7% do peso corporal
em pessoas com sobrepeso/obesidade
- Prática regular de atividade
física (pelo menos 150 minutos semanais)
- Alimentação equilibrada, rica em
fibras e pobre em gorduras saturadas e açúcares refinados
- Controle da pressão arterial e dos
níveis de colesterol
- Abandono do tabagismo
Diabetes
gestacional
- Peso adequado antes da gravidez
- Ganho de peso gestacional dentro
dos parâmetros recomendados
- Atividade física regular (sob
orientação médica) pode reduzir o risco
Diabetes
monogênicos
- Por serem causados por mutações
genéticas específicas, não são passíveis de prevenção
- O diagnóstico precoce e preciso é
fundamental para o manejo adequado
Considerações para a Prática Farmacêutica
- A abordagem terapêutica varia significativamente entre os tipos de diabetes, desde a dependência absoluta de insulina no DM1 até o controle primariamente não farmacológico em alguns casos de MODY
- A monitorização glicêmica apresenta peculiaridades em cada tipo de diabetes, com necessidades de verificações mais frequentes no DM1 e LADA
- Diversos medicamentos podem induzir ou agravar a hiperglicemia, sendo essencial a identificação proativa desses casos na prática clínica
- A educação em saúde deve ser personalizada, considerando o mecanismo fisiopatológico específico de cada tipo de diabetes
- O reconhecimento de formas atípicas de diabetes pode levar a ajustes terapêuticos significativos, como a possibilidade de transição de insulina para sulfonilureias em alguns casos de diabetes monogênicos
- A classificação correta do tipo de diabetes não é apenas um exercício acadêmico, mas um passo fundamental para o tratamento personalizado e eficaz.
- Como farmacêuticos, podemos contribuir significativamente para a identificação de casos atípicos e para a otimização da farmacoterapia em cada perfil de paciente
Referências:
- Sociedade Brasileira de Diabetes.
Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes 2019-2020.
- American
Diabetes Association. Standards of Medical Care in Diabetes—2023.
- International
Society for Pediatric and Adolescent Diabetes (ISPAD). Clinical Practice Consensus
Guidelines, 2022.
- World
Health Organization. Classification of diabetes mellitus, 2019.

O Dia Mundial do Diabetes, comemorado no dia 14 ne novembro, é uma atividade mundial organizada pela OMS com o intuito de chamar a atenção de toda a população do Brasil e fora do Brasil para a necessidade do controle e prevenção da doença.
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