Ao solicitar a identificação dos processos da assistência farmacêutica que integram a rotina de trabalho, é comum que médicos e enfermeiros associem diretamente às etapas de prescrição e administração de medicamentos. No entanto, essas etapas representam apenas uma pequena parte do ciclo da assistência farmacêutica, configurando-se como o desfecho final de todo o processo terapêutico do paciente.
A assistência farmacêutica é um componente essencial do Sistema Único de Saúde (SUS), englobando um conjunto de ações interligadas que promovem o acesso a medicamentos seguros, eficazes e de qualidade, além de incentivar seu uso racional. Essas ações incluem etapas como seleção, programação, aquisição, armazenamento, distribuição e dispensação de medicamentos, todas integradas ao processo de cuidado em saúde (BRASIL, 2022; OPAS/OMS, 2005).
O Papel
do Planejamento na Assistência Farmacêutica
O
planejamento é uma etapa central no ciclo da assistência farmacêutica e
refere-se ao gerenciamento adequado do abastecimento de medicamentos. Ele é
fundamental para assegurar a oferta contínua e eficiente dos insumos
necessários ao atendimento à saúde, evitando desabastecimentos ou desperdícios
(MARIN et al., 2003; OPAS/OMS, 2005).
Essa etapa
envolve atividades como:
- Identificação das necessidades locais: Conhecer o perfil epidemiológico da população atendida é essencial para selecionar os medicamentos mais adequados e garantir que os recursos disponíveis sejam utilizados de forma eficiente (PEREIRA, 2016).
- Programação: Conjunto de atividades destinadas a garantir a disponibilidade de medicamentos previamente selecionados em qualidade e quantidade adequadas, considerando os recursos financeiros disponíveis. A programação precisa ser descentralizada e ascendente para refletir as reais demandas locais (OPAS/OMS, 2005; COSTA et al., 2021).
Ferramentas
Auxiliares no Planejamento
Para
auxiliar no planejamento e na organização da assistência farmacêutica, algumas
ferramentas são indispensáveis:
- RENAME (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais): Lista oficial que orienta a seleção e programação dos medicamentos essenciais no SUS. Ela garante que os medicamentos mais eficazes e seguros estejam disponíveis para atender às necessidades da população (MARIN et al., 2003).
- Comissões de Farmácia e Terapêutica (CFT): Responsáveis por padronizar os medicamentos utilizados nos serviços de saúde, promovendo maior controle sobre o consumo e a aquisição (OPAS/OMS, 2005).
- Gestão logística: Sistemas informatizados para controle de estoques que monitoram entradas e saídas de medicamentos, permitindo decisões mais precisas sobre compras e reposições (DANTAS, 2011).
A
Importância da Integração dos Processos
A organização integrada das etapas do ciclo da assistência farmacêutica é fundamental para garantir a eficiência das ações. Cada etapa do ciclo – seleção, programação, aquisição, armazenamento, distribuição e dispensação – está interligada e depende do planejamento adequado para funcionar corretamente. A ausência dessa integração pode levar a problemas como:
- Desabastecimento: Falta de medicamentos essenciais nos serviços de saúde.
- Desperdício: Perda de insumos devido ao vencimento do prazo de validade ou à má gestão dos estoques (DANTAS, 2011; COSTA et al., 2021).
Por outro
lado, um planejamento bem estruturado assegura:
- Disponibilidade contínua: Medicamentos sempre acessíveis aos pacientes.
- Uso racional: Redução dos riscos associados ao uso inadequado dos medicamentos.
- Otimização dos recursos públicos: Minimização de desperdícios financeiros e materiais (PEREIRA, 2016; COSTA et al., 2021).
O planejamento na assistência farmacêutica é fundamental para assegurar o uso eficiente e sustentável dos recursos, garantindo o acesso contínuo aos medicamentos essenciais e promovendo seu uso racional. A integração de ferramentas como a RENAME e as CFTs aos processos logísticos e administrativos permite que gestores antecipem problemas e implementem soluções que otimizem o funcionamento do sistema. Além disso, uma gestão bem estruturada na seleção e programação de medicamentos contribui para a saúde da população, evitando desperdícios financeiros e impactos ambientais decorrentes do descarte inadequado (COSTA et al., 2021).
REFERÊNCIAS
MARIN, N.;
LUIZA, V. L.; OSORIO-DE-CASTRO, C. G. S.; MACHADO-DOS-SANTOS, S. (Org.). Assistência
Farmacêutica para gerentes municipais. Rio de Janeiro: OPAS/OMS, 2003.
334p.
PEREIRA, S.
R. F. Gestão da Assistência Farmacêutica. Rio de Janeiro:
EPSJV/Fiocruz, 2016. Disponível em: https://www.rets.epsjv.fiocruz.br/sites/default/files/arquivos/biblioteca/fasciculo_10.pdf.
OPAS/OMS. Avaliação
da Assistência Farmacêutica no Brasil. Brasília: Organização Pan-Americana
de Saúde/Organização Mundial da Saúde; Ministério da Saúde, 2005. Disponível
em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/colec_progestores_livro7.pdf.
COSTA, B.
P.; TAVARES, D. C. S.; MENEZES, Í. S.; ALMEIDA, A. C. G.. Prática farmacêutica
na seleção e programação de medicamentos no Sistema Único de Saúde (SUS):
Revisão da literatura. Research Society and Development, v.10 n14
p.e547101422522; DOI: 10.33448/rsd-v10i14.22522.
DANTAS,
S.C.C.. Farmácia e Controle das Infecções Hospitalares. Pharmacia
Brasileira; Brasília: CFF; 2011.