A Insulina: Do Laboratório à Saúde Pública

A história centenária da insulina nos ensina que o verdadeiro valor de uma descoberta científica só se realiza plenamente quando traduzido em acesso efetivo para todos que dela necessitam. Este princípio fundamental deve continuar orientando os esforços de profissionais farmacêuticos e sanitaristas na consolidação de sistemas de saúde mais justos e resolutivos.

Um marco no controle do diabetes

A insulina redefiniu o tratamento do diabetes, transformando uma doença letal em condição crônica. Descoberta em 1921 por Frederick Banting e John Macleod na Universidade de Toronto, seu uso clínico começou em 1922 com Leonard Thompson, um adolescente de 13 anos que recuperou seu peso e saúde após doses do hormônio.

Da extração animal à biotecnologia

Nos anos 1980, a revolução da engenharia genética permitiu a produção de insulina humana idêntica via bactérias modificadas, eliminando riscos de reações imunológicas. Hoje, análogos com perfis de ação ajustados (rápida ou prolongada) oferecem esquemas personalizados.

Impacto na Saúde Pública

Antes da insulina, pacientes com diabetes tipo 1 enfrentavam dietas extremas e mortalidade acelerada. Hoje, o SUS fornece gratuitamente insulinas humanas, garantindo acesso universal. No entanto, desafios persistem: equidade no acesso a tecnologias avançadas (ex.: bombas de infusão) e educação em saúde para prevenir complicações.

Legado e desafios atuais

A insulina é um símbolo de como ciência e política pública podem salvar vidas. No Brasil, a CONITEC avalia essas tecnologias para incorporação no SUS, mas a judicialização de medicamentos expõe fragilidades no sistema que precisam ser reavaliadas.


Referências:

  1. Bliss M. The Discovery of Insulin: Special Centenary Edition. Toronto: University of Toronto Press; 2021. 352 p. ISBN: 9781487529147. Disponível em: https://utppublishing.com/doi/book/10.3138/9781487529130

  2. Vecchio I, Tornali C, Bragazzi NL, Martini M. The Discovery of Insulin: An Important Milestone in the History of Medicine. Frontiers in Endocrinology. 2018;9:613. DOI: 10.3389/fendo.2018.00613. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/endocrinology/articles/10.3389/fendo.2018.00613/full

  3. Biomm S.A. Como a biotecnologia contribuiu para a evolução da insulina. [Internet]. Belo Horizonte: Biomm; 2021 jul 27 [citado em 19 mar 2025]. Disponível em: https://biomm.com/como-a-biotecnologia-contribuiu-para-a-evolucao-da-insulina/

  4. Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Saúde amplia uso de insulinas análogas do SUS para pacientes com diabetes tipo 2. [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2024 jan 10 [citado em 19 mar 2025]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2024/janeiro/saude-amplia-uso-de-insulinas-analogas-do-sus-para-pacientes-com-diabetes-tipo-2

  5. Agência Brasil. Há 100 anos era descoberta a insulina importante tratamento à diabetes. [Internet]. Brasília: EBC; 2021 jul 27 [citado em 19 mar 2025]. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/saude/audio/2021-07/ha-100-anos-era-descoberta-insulina-importante-tratamento-diabetes

  6. Sociedade Brasileira de Pediatria. Mini-Biografia: Frederick Grant Banting. [Internet]. Rio de Janeiro: SBP; 2019 [citado em 19 mar 2025]. Disponível em: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/Mini-Biografia_-_Frederick_Banting2.pdf

  7. Deutsche Welle (DW). Há 100 anos era descoberta a insulina, vital para diabéticos. [Internet]. Bonn: DW; 2021 jul 27 [citado em 19 mar 2025]. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/h%C3%A1-100-anos-era-descoberta-a-insulina-vital-para-diab%C3%A9ticos/a-58650425

  8. Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Diabetes (diabetes mellitus). [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2023 nov 14 [citado em 19 mar 2025]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/d/diabetes

  9. Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes 2019-2020. São Paulo: Clannad; 2019. Disponível em: https://www.diabetes.org.br/profissionais/images/DIRETRIZES-COMPLETA-2019-2020.pdf

  10. Cesaretti MLR, Volpato GT. Modelos experimentais de resistência à insulina e obesidade: lições aprendidas. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia. 2006;50(2):190-197. DOI: 10.1590/S0004-27302006000200006. Disponível em: https://www.scielo.br/j/abem/a/XKsJ4BdYQJCk4v5zz5g8Lrm/

  11. Diabetes UK. 100 years of insulin: a scientific miracle that transformed type 1 diabetes. [Internet]. London: Diabetes UK; 2021 jan 10 [citado em 19 mar 2025]. Disponível em: https://www.diabetes.org.uk/about_us/news/100-years-insulin

MANEJO PRÁTICO DO DIABETES: GUIA DE AÇÃO PARA FARMACÊUTICOS

A insulina é um hormônio crucial no tratamento do diabetes mellitus, regulando o metabolismo de carboidratos ao facilitar o transporte de glicose para as células. Como farmacêutico, seu papel é vital na orientação e acompanhamento do paciente diabético. Este guia oferece informações práticas para o dia a dia profissional.


O QUE FAZER NA SUA ROTINA DIÁRIA


1. AVALIAÇÃO INICIAL DO PACIENTE

✓ Identifique necessidades prioritárias: questione sobre dificuldades no tratamento logo no primeiro contato

✓ Avalie o conhecimento prévio: "O que você já sabe sobre seu tratamento com insulina?"

Verifique histórico de adesão: "Tem conseguido aplicar a insulina nos horários recomendados?"

✓ Observe técnicas em uso: peça para o paciente demonstrar como faz a aplicação


2. ORIENTAÇÕES SOBRE INSULINA - FAÇA ISSO!

✓ Demonstre a técnica correta:

  • Mostre com dispositivos de demonstração
  • Use linguagem simples: "Pegue uma prega de pele assim e insira a agulha neste ângulo"
  • Peça para o paciente repetir a técnica na sua frente

✓ Enfatize o rodízio dos locais:

  • Entregue um mapa de rodízio visual
  • Sugira: "Comece pelo lado direito do abdome na segunda-feira e siga no sentido horário durante a semana"

✓ Explique armazenamento com exemplos práticos:

  • "Insulina em uso pode ficar à temperatura ambiente, longe do sol, por até 28 dias"
  • "Insulinas fechadas ficam na geladeira, na prateleira do meio, nunca no congelador"

✓ Aborde hipoglicemia com frases simples:

  • "Se sentir tontura, suor frio ou tremores, tome um copo de suco de laranja imediatamente"
  • "Tenha sempre balas ou tabletes de glicose no bolso"

 

3. MONITORAMENTO CONTÍNUO

✓ Crie lembretes práticos para registros:

  • Ofereça planilhas simples de anotação
  • Sugira aplicativos específicos para monitoramento

✓ Estabeleça metas realistas:

  • "Vamos tentar manter seus níveis abaixo de X nas próximas duas semanas?"
  • Celebre pequenas conquistas: "Você conseguiu reduzir suas hiperglicemias pela metade!"

✓ Programe retornos estratégicos:

  • "Vamos conversar novamente em 10 dias para ver se as orientações estão funcionando"

 

4.     INTEGRAÇÃO COM EQUIPE DE SAÚDE

✓ Comunique-se efetivamente:

  • Use relatórios curtos e objetivos para médicos e nutricionistas
  • Inclua apenas informações relevantes: "Paciente apresenta dificuldade específica em..."

✓ Encaminhe com propósito:

  • "Estou encaminhando você para a nutricionista para ajustes na contagem de carboidratos"

 

5.     CHECKLIST DO FARMACÊUTICO

□ Avaliou técnica de aplicação
□ Verificou conhecimento sobre armazenamento
□ Orientou sobre reconhecimento de hipoglicemia
□ Revisou esquema de rodízio dos locais
□ Analisou resultados do automonitoramento
□ Identificou problemas de adesão ao tratamento
□ Estabeleceu data para seguimento

 

REFERÊNCIAS

  1. Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes 2023-2024. São Paulo: Editora Clannad; 2023.
  2. Ebook 2.0 de Diabetes na Prática Clínica. Sociedade Brasileira de Diabetes. Disponível em: http://ebook.diabetes.org.br/
  3. Educação em Diabetes BD. Becton Dickinson. Disponível em: http://www.bd.com/brasil/diabetes
  4. Farmácia Estabelecimento de Saúde. Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo. São Paulo; 2019.

Tipos de insulina disponíveis no SUS

O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece diferentes tipos de insulina (humanas e análogas) para o tratamento do diabetes mellitus (DM), atendendo às necessidades terapêuticas dos pacientes com diabetes tipo 1 e tipo 2. A distribuição dessas insulinas é organizada por dois componentes da assistência farmacêutica: o Componente Básico e o Componente Especializado, cada um responsável por diferentes apresentações e critérios de dispensação.

Componentes da Assistência Farmacêutica

1. Componente Básico

  • Responsável pela aquisição e distribuição das insulinas humanas NPH e Regular.
  • Atende à Atenção Primária à Saúde (APS), garantindo acesso universal para todos os pacientes com diabetes mellitus tipo 1 ou tipo 2.
  • Essas insulinas são fornecidas em frascos de 10 mL ou canetas descartáveis de 3 mL.
    • Inclui também agulhas para aplicação, com uma agulha por dia para cada tipo de insulina.
  • A dispensação das canetas de insulina NPH e Regular é regulamentada por critérios definidos pelo Ministério da Saúde e pode variar conforme as particularidades locais. Os critérios gerais incluem:
    • Pacientes com Diabetes Mellitus Tipo 1 (DM1): Independentemente da faixa etária.
    • Pacientes com Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2):
      • Menores ou iguais a 19 anos;
      • Maiores ou iguais a 45 anos;
      • Grávidas ou puérperas, independentemente da idade;
      • Pacientes com limitações físicas (ex.: membros superiores) ou visuais que dificultem o uso de frascos;
      • Pacientes que enfrentam dificuldades no preparo da insulina no ambiente de trabalho.

    2. Componente Especializado

    • Destinado às insulinas análogas (Glargina, Detemir, Degludeca, Lispro, Aspart e Glulisina).
      • Indicadas para pacientes com maior risco de hipoglicemia grave ou dificuldade no controle glicêmico com insulinas humanas.
      • Fornecimento condicionado ao preenchimento do Laudo Médico Especializado (LME) por endocrinologistas, conforme critérios estabelecidos no Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT).
    • As insulinas análogas são distribuídas em canetas descartáveis ou refis recarregáveis.


    Quadro 1 - Insulinas Disponíveis no SUS

    Componente Responsável

    Grupo

    Insulina

    Nome Comercial

    Classificação ATC

    Apresentação

    Componente Básico da Assistência Farmacêutica - CBAF




    Insulinas Humanas

    NPH  (protamina neutra de Hagedorn) 

    Novolin® N

    A10AC01


    Frasco de 10 mL ou Caneta descartável (3 mL)

    Regular

    Novolin® R

    A10AB01

    Componente Especializado da

    Assistência Farmacêutica - CEAF




    Análogos de Insulina

    Glargina 100 U/mL

    Lantus®, Basaglar®, Glargilin®


    A10AE04




    Caneta descartável ou refil de 3 mL

    Glargina 300 U/mL


    Toujeo®

    Detemir

    Levemir®

    A10AE05

    Degludeca

    Tresiba®

    A10AE06

    Lispro

    Humalog®

    A10AD04

    Aspart

    NovoRapid®

    A10AD05

    Glulisina

    Apidra®

    A10AD06

    Fonte: dados da pesquisa. 

    Observações:
    1. ATC (Anatomical Therapeutic Chemical): Define a categoria terapêutica e farmacológica das insulinas.
      • A10AB: Insulinas de ação rápida.
      • A10AC: Insulinas de ação intermediária.
      • A10AE: Análogos de insulina de ação prolongada.
      • A10AD: Análogos de insulina de ação rápida.
    2. DDD (Dose Diária Definida): A DDD para todas as insulinas é padronizada como 40 unidades internacionais (UI).
    3. Administração: Todas as insulinas listadas são administradas por via subcutânea.


    O SUS oferece uma ampla gama de insulinas para atender às necessidades dos pacientes com diabetes mellitus. As insulinas humanas garantem cobertura básica e acessível, enquanto os análogos proporcionam maior flexibilidade terapêutica e redução do risco de hipoglicemias graves. O farmacêutico desempenha um papel essencial na orientação sobre o uso correto dessas tecnologias, contribuindo para o controle glicêmico e a qualidade de vida dos pacientes.


    Referências: